quinta-feira, dezembro 21, 2006

Diário de Carajás e outros escritos.


Realidade e ficção sobre uma antena de rádio.
Três versões sobre uma história.

Primeira


Eu e dois amigos, um chamado Gustavo e outro sem nome, estamos clandestinamente fazendo uma transmissão sonora, em freqüência fm. No mato, instalamos a antena, o som e, com dificuldade, transmitimos um cd que deve ser “Ceic play The Beatles”. Deixamos, depois de muita dificuldade na instalação, os aparelhos ligados no mato. Já é noite quando percebo que esqueci de colocar loop no cd player. Não fossem alguns socos e pontapés, tomados no escuro e por trás, vindos não sei de onde, tudo corre bem. Pelo menos até aí.

Entretanto, na nossa segunda visita ao transmissor para o posicionamento definitivo do maquinário, algo está preste a acontecer. Alegramo-nos imaginando o que seria dito no encontro de estudantes sobre a nossa ousadia quando, num movimento inesperado, um observador oculto se faz perceber. Assustados com o intruso, meus comparsas fogem. Eu saio para o outro lado, sem pressa e sem medo.

Deparo-me com vários homens da polícia federal. Um deles me aponta uma escopeta. Lembro-me de ironizá-lo: “de escopeta para prender três libertários?” Depois, sendo levado preso, questiono sobre o fim da ditadura, a liberdade de expressão, mas sou tratado como bandido maior. O policial principal é bastante esquisito e quer saber sobre outras conexões. Vejo, durante o interrogatório, fotos minhas e de meus companheiros, tiradas na noite anterior, bem perto do local da transmissão clandestina. É impressionante a proximidade das imagens. Nos vigiaram a metro e não percebemos nada. Questiono como sabem de coisas tão antigas a meu respeito se fizemos a única transmissão apenas na noite anterior. Dizem que estavam ao nosso encalço e nos monitorando há meses, a pedido da Companhia.

Sobre uma mesa há vários passaportes. Procuro pelo meu e o encontro. É de um tipo mais novo que contém fotos também dos filhos. Mas percebo que as fotos são de Luciana, um bebê doente, no hospital. Volto à capa para certificar-me se não há algum engano. Não há! É o meu passaporte e a criança havia sido, por engano, registrada em meu nome.

Peço, não sei se de uma cama ou de uma cela em que estou preso, para dar o telefonema a que tenho direito. Para tranqüilizá-la, pois pode estar preocupada por ter visto aquelas fotos na tv, ligo para minha mãe.
Domingo , 06 de Junho de 2004.




Segunda

A aventura da antena de celular começou há duas semanas. Estava na aula de pintura e observava a instalação daquela estrutura alaranjada. 70 metros de altura, como me informou Antonio, funcionário da empresa responsável. Uma altura privilegiada e um bom ponto de vista do Núcleo. Perguntei a ele se era possível subir para fazer algumas fotos. Disse que já havia feito para uma pessoa e não se importaria em fazer para mim também. Negativo Senhor Antonio, respondi! Sou professor da escola e fotógrafo. Quero fazer as fotos eu mesmo. Ele foi camarada, me emprestou colete e capacete de segurança e disse que eu poderia fazer. Combinei, então, que iria na madrugada seguinte, para pegar o amanhecer. Antonio não se opôs.

Antes do meu motorola despertar, às 5:40, acordei e notei que chovia bastante. Havia sonhado que voava, literalmente. Batia meus braços no ar, levitava e tomava altura de uns 20 ou 30 metros, vendo casas e pessoas, por cima. Suave e maravilhosamente, vi coisas que só se vê upstairs.

O equipamento precisou ser devolvido ao Antonio na mesma manhã. Combinamos que ele o deixaria junto à antena, disponível para o dia seguinte.

Novamente antes do despertador, acordei assustado. Palavra estranha: pesadelo. Nome de filme. Chovia. Levantei, pensei em tudo isso, nas versões sobre esses fatos. Escrevi. Saí ainda de cuecas na calçada. Não havia estrelas mas não iria chover mais. Entrei, me vesti, peguei minha bolsa e o tripé. Beijei meu amor que pediu que eu não fosse. Fui de bike mesmo.

Aos pés da grande torre, procurei pelo equipamento de segurança. Não estava lá. Não hesitei. O guarda-corpo era seguro, eu não iria me pendurar arriscadamente. Contava degrau por degrau da escada molhada. A cada lance, 12 metros e uma parada. Parava e descansava. As mãos doíam na palma. Cinco lances, sessenta metros. Já via, à leste, o Vale do Parauapebas, com neblina. A oeste, as pilhas de minério que cobrirão, algum dia, o Serra Norte e algumas luzes. Mais um lance me levaria ao topo, mas fiquei por ali mesmo. Fechei o alçapão do piso e abri o tripé. Dois tripés. Se vi coisas é porque subi nos ombros de gigantes, como diria Newton. Posicionei a câmera e rodei. Meio segundo a cada trinta segundos. Uma hora em um minuto.

O vento soprava ruidosamente. Pássaros voavam lá embaixo em busca das copas das árvores. Os guaribas ao longe e o sol lentamente apontando. Sábado e a cidade sem movimento. Reposicionei a câmera para enquadrar ônibus nos pontos. Não consegui pois a manopla do tripé tocou na escada-marinheiro e impediu um giro maior. Buscava também as sombras oblíquas do amanhecer, mas o sol ficou ligeiramente encoberto. Tentativa una, tentativa nula. Fiz ainda alguns takes da feirinha e algumas pans com zomm das casas, calçadas e fachadas. Andorinhas planavam, bem próximas. Algumas pousavam na torre e me observavam. Guardei o equipamento fotográfico lentamente e desci, sem pressa. A equipe da tv que saia nem percebeu meus movimentos. Eu os observava mas eles, nada vêem. Os hóspedes do Cedro também não me viam. Apenas os pássaros.

Em casa, percebi que ainda eram 7:40. Tirei a roupa e voltei ao berço. Sonho acordado!
Segunda-feira , 07 de Junho de 2004.




Terceira

Há quatro anos, desde que cheguei a Carajás, propus à diretoria da escola a implantação de uma rádio comunitária e pedagógica. Seria minha segunda experiência em transmissão radiofônica. Sustentado por um projeto de uma ONG tipo “amigos da escola”, escrevi o projeto “Rádio Nave, uma rádio do cassete”. O plano a ser desenvolvido com professores de todas as disciplinas sugeria a produção de trabalhos para os quais, após pesquisarem e escreverem sobre o tema, os alunos deveriam fazer um roteiro de falas, músicas, diálogos e/ou discursos, para gravarem numa fita-cassete. O resultado seriam programas de 30, 60 ou múltiplos de 60 minutos, para facilitar a transmissão.

Entretanto, por mais que a coordenação da escola dissesse apoiar o projeto ela nunca o levou a sério. Nunca o apresentou às reuniões pedagógicas da comunidade escolar. A rádio ficaria a cargo de quem, pessoalmente, quisesse bancar o projeto.

Se quiser mudar a escola, mude você sozinho. Jamais terá apoio institucional.

É uma das instituições mais antigas e mais conservadoras. Mais velha, apenas a prostituição, a igreja e as oficinas de artesãos. O resto é novo: as indústrias, as lojas ou pontos comerciais, agora shoppings, são novos.

Entretanto, cego àqueles e de olhos bem abertos a um ambiente escolar de aprendizagem real e possível, subi na caixa dágua da escola e instalei o transmissor fm. Contei com o apoio de um técnico em eletrônica da comunidade que ajustou o amplificador para noventa e poucos megarrestz. Levamos um fio de energia lá pra cima e plugamos um diskman, em loop:” Ceic play The Beatles”.

Circulamos, eu e meu amigo, pelo núcleo e ouvimos a rádio. Não era um sinal potente, havia algumas zonas que são chamadas escuras, em que o sinal ficava fraco, mas identificávamos bem a música e as vozes dos jovens apresentadores. Principalmente, o led do som do carro ficava ligado: havia sinal de rádio. Sintonizei a rádio em casa, meu vizinho ouviu também e fiquei feliz, realizado.

A professora de geografia topou o projeto e umas quinze fitas-cassetes foram gravadas sobre o tema reforma agrária e movimentos sociais dos sem-terras: novelas e dramas sobre posseiros e latifundiários, telejornais e muita música sertaneja. Na disciplina de música, programas sobre rock, brega, sertanejo, hard-core e muito mais viraram dezenas de fitas-cassetes. Mais de cinquenta cartazes diferentes para divulgação da “rádio do cassete” foram feitos nas aulas de educação artística, pelos alunos das sétimas séries.

But, não vingou. O caminho da burocracia e o discurso do “deixa como está para ver como é que fica” triunfou. Preferiram pleitear uma autorização cartorial para o projeto. Acharam que um telefonema para Brasília resolveria uma autoritária mazela constitucional brasileira. O medo esmagou a esperança. A rádio virou pó. “Rádio em Pó”. Nome da minha primeira experiência radiofônica, em Belo Horizonte, nos idos de 80.
Domingo , 27 de Junho de 2004.





Depois de uma reunião pedagógica...
GATUNOS
Os gatunos da salmoura carajaense, encarregados em segmentar o escrutínio lógico da docência interdisciplinar, incorporam ao aparato florestal, definições semânticas povoadas de preciosas manufaturas puritanas.

Dificilmente o espectro destas manifestações encontrará pauta para a pesquisa, a implantação, a produção e a distribuição do azul ciano ou do cobalto espanhol.

Verifica-se, entretanto o revés de respostas negativas acompanhadas de um romantismo diletante e por vezes fugaz. Para tais manifestações, verifica-se também uma ilusão dilacerada, corrompida por aspectos tangentes ao cerne do núcleo temático.

É mister estratificar perante tais considerações que os gatunos acima arrolados são portanto desprovidos de massa cefálica no hemisfério esquerdo e, portanto, inaptos para a outorga de demonstrações estéticas que satisfaçam às premissas da arte.


abril de 2004