Cantava como nunca, carregando no colo a pequena e notável protagonista. Ela chorava como chorou durante boa parte do show. Ou seria um filme? Os cenários eram de ópera: camarins e coxias abrigados por fachadas sofisticadas e belissimamente iluminadas. Passagem imediata para a rua com seus cambistas, flanelinhas e vendedores ambulantes. Mas esta cena de rua foi o fim com letreiros, palmas ou campainhas, não me lembro direito, pois a emoção era grande e precisava retribuir tudo à pequena.
Comecei fazendo testes para figuração em um pequeno projeto. Como estou envolvido com produção audiovisual, conheço um bocado de gente, fui me aproximando dos autores e quando assustei, estava sendo cotado para contracenar com a pequena, protagonista. Era um papel pequeno e curto, mas a situação era emocionante: estar no staff principal com todo aquele glamour e toda loucura possível.
Quando houve intervenção dos produtores principais tirando o meu nome do short list, já haviam semanas de ensaios, figurino impecável e tudo mais que tinha direito. Mas não me abalei. Já circulava pelo palco – ou seria um set? – com pompas de coadjuvante, inclusive sendo consultado e opinando sobre quase tudo.

Sugeri que bastidores, coxia, camarins, locação/teatro e rua fosse parte do espetáculo. Tudo bem iluminado e direção de arte detalhada para que um simples eletricista ou assistente de moda tivesse sua aparição aproveitada. Sofisticados truques de cenografia, equipamentos de iluminação com movimentos, potência de luz e escala cromática todos computadorizados. Sentia que era o melhor da produção local.
A estréia ocorreu com a euforia de praxe. Sucesso de público, congestionamento na porta, movimento de muita gente, vendedores ambulantes, flash a todo instante e grande burburinho. Minha cena não merece comentário, mas tudo terminado me perdi na confusão. Fui por engano ao camarim norte e precisei caminhar até o camarim sul passando por todo cenário.
Encontrei a pequena ainda chorando. Ela estava ajoelhada como se rezasse. Peguei-a pelo colo e, como uma oferta aos mortos e aos ícones, glorificados no espetáculo, fiz minha oferenda usando toda potência da minha voz para Francisco. Não engasguei um minuto, apesar das lágrimas correrem com facilidade. Era como se estivesse em cena e a pequena percebia que ainda não havia terminado. Aquele momento sim era o ápice.
Com ela ainda no colo, caminhei por todo tablado, saí pela porta de emergência, ganhei a rua, passando por muitas luzes e pessoas. Sumimos no meio dos carros e buzinas.