domingo, fevereiro 11, 2007

Dick Vigarista

Fica um pouco difícil datar exatamente estes fatos por se tratar de um passado distante quando era ainda talvez um menino. O que posso sinalizar é que o papai ainda era vivo e a mamãe naquela época dirigia automóvel.
O programa era uma visita ao seu Nicolau e parece que íamos comer umas trutas ou guloseimas oferecidas por ele. Estávamos em casa de tio Jacinto, uma fazenda de varanda ampla e arejada, eu, mamãe e Cinho. Esperávamos a chegada do seu Nicolau para partirmos e nada do velho chegar. Se bem que eu não o conhecia e qualquer movimento na estrada ou no terreiro, de um carro, um animal ou outra coisa que pudesse sinalizar a chegada de alguém, me despertava o cochilo, mas só ouvíamos o movimento de papai por ali a trabalhar e trabalhar.
Quando se deu sol a pino, ficou decidido que iríamos na sua direção, ou melhor, em direção à cidade dele, para encontrá-lo pelo caminho. Pegamos o carro, Cinho na direção, e tocamos pela estrada de baixo. Íamos papai, mamãe, o motorista e eu. Por essa estrada o caminho era mais sinuoso e mais fácil de topar com seu Nicolau, mas em compensação, mais difícil de acertar as entradas e encruzilhadas.
Já andávamos há mais de hora quando papai sugeriu que mudássemos o plano. Seguiríamos a pé pelo caminho, enquanto mamãe e Cinho voltariam para a casa. Para qualquer desencontro, o ponto de encontro seria a casa vermelha. Casa vermelha era uma venda/bodega que ficava do lado direito do caminho de baixo, pelos lados do Ruão, e era chamada vermelha pelas suas vermelhas buganvílias espalhadas junto à varanda. Feito isto, retornou o variant bege e ficamos os andarilhos pelo caminho.
Andar faz bem para a amizade e para a prosa. Os assuntos, não me lembro, mas o papo sei que foi prazenteiro, pois para mim e papai era oportunidade de reflexões e confidências.
Depois de uma ou outra légua após o Ruão, e nada de seu Nicolau, resolvemos voltar para a casa vermelha julgando que havíamos errado o caminho, passado da entrada correta ou perdido o rumo. Voltamos até a combinada casa e lá paramos para um café. Já não me lembro com certeza por quanto tempo ali ficamos distraídos quando papai apontou lá adiante uma figura parecida com seu Nicolau. O víamos de costas e parecia vestido todo de preto, com um chapéu alto e comprido. Mas papai não confirmou e o vulto passou. A memória é ingrata com o passar do tempo, mas o que resta é que fiquei por ali. Papai seguiu em busca de seu Nicolau pelo caminho e o encontrou. Era ele mesmo que havíamos visto passando e já estava no caminho contrário daquele que havíamos visto antes. Era ele mesmo, de roupas pretas, que naquele sol e à distância mais parecia um bruxo ou uma Hamish, com aquele chapéu de Merlin. Moderno, pois usava fones de ouvido e me parece levava um rádio no bolso da frente. Era uma figura e eu não o conhecia. Parecia gringo, pois falava com um sotaque estranho e para um adulto, ou melhor, um idoso, dava muita atenção e conversa a uma criança como eu. Parecia também um personagem de gibi ou de fantasia. Ficamos por ali, na varanda da casa vermelha, escolhendo no menu algo que combinasse com aquele fim de tarde. Não ouvimos mais falar na variant, o que nos preocupou, pois a mamãe não era assim tão boa de rodas, muita menos naquela poeira de estrada. O que me despertou e me trouxe esta história à memória foi o choro da Nara, mas deste desconhecido e tal, seu Nicolau, acho que nunca mais vou me esquecer.

Belo Horizonte, 07 de fevereiro de 2007.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Quebra Canoas


Projeto para vídeo, livro ou álbum de figurinhas.

Sub-título: 50 minutos em busca de um roteiro.


Vou postanto a partir de hoje frames dos 50 minutos do casarão de Quebra Canoas. Pode ser uma volta às origens, na recuperação de algo que se perdeu. Não sei explicar. Esta ilustração, reproduzi de um original da dna. Sônia herdeira do casarão. Ela não quis gravar entrevista, mas disse que a filha Ana Cristina, nascida na fazenda, é doida para voltar a viver lá e mudaria amanhã se a mãe permitisse.







Construção do Sec. XVIII, com capela, senzala entre outros 26 cômodos.



Fechada desde 1978. Ou melhor, sem moradores desde 78, quando foi feita a partilha entre os herdeiros.